
Sergio Vieira
Quando eu era mais jovem e trabalhava como office-boy andava apressado pelo Centro de São Paulo. Comecei a fazer as contas e, de repente, dei-me conta de que isso já faz mais de 20 anos.
Nessas duas décadas que se passaram só voltei a passar pelo Centro da cidade umas duas ou três vezes. Para variar e, repetindo religiosamente o ritmo de São Paulo, essas visitas foram rápidas, sem tempo para apreciar nada.
Porém, nessa quinta-feira passei no Centro decidido a observar melhor os elementos que estavam ali enquanto eu, na adolescência, corria de um lado para outro em busca do pão nosso de cada dia.
Comecei a descer a Quintino Bocaiúva e, logo notei a ida de prostitutas com os seus clientes para um hotelzinho quase de esquina. Elas estão diferentes. Antigamente, as putas eram velhas. Usavam um perfume que dava para sentir ao longe e tinham um gosto duvidoso para combinar roupas. As de hoje são mais novas e se vestem como qualquer outra garota.
Usam calça apertadíssima, piercing no umbigo, tatuagem na região lombar e tinta no cabelo. Assim como as suas antecessoras de ponto, elas não dão as mãos para os seus clientes e se resumem a trocar com eles duas ou três palavras. Passam direto pelo pequeno balcão da recepção do hotel e o cliente de primeira viagem é avisado que se paga na volta. Deixei de lado a observação do entra e sai do hotel e continuei descendo a Quintino.
Fiquei chocado com a quantidade de lojas de sebos que se espalhou pelas imediações. Mas bastou entrar em três delas para entender o motivo. As lojas de sebo de hoje não vendem apenas livros e revistas antigas como antes. Hoje, você acha CDs de filmes, música, doces, artigos de papelaria, livros novos, bijuteria e uma porção de outras tranqueiras. Não parece com os sebos de antigamente.
Cruzei a Senador Feijó e notei que pouca coisa mudou na arquitetura do lugar. Os mesmos prédios mal cuidados, a sujeira acumulada nos vãos, a tinta descascada das paredes e o respingo de cocô de pombo nas fachadas dão a impressão de que estou, novamente, trabalhando como office-boy. Ops! Será que eu voltei no tempo?!
Até cheguei a pensar por um segundo que sim, mas a calmaria atual do lugar me fez lembrar de outros personagens do passado: Onde estão os trombadinhas? De repente, dei-me conta de que já estava passeando há uns dez minutos pelo Centro sem ter presenciado nenhum assalto. Será que é o mesmo Centro?
Antigamente, os trombadinhas andavam em gangues, eram rápidos no bote e as senhoras que subiam e desciam as escadas rolantes da estação Sé eram os alvos preferidos. O relógio que era arrancado do braço das mais distraídas garantia o cheiro da cola de sapateiro por um ou dois dias.
O relógio era despachado no próprio local, bem, na verdade, entre os vários camelôs da rua Direita ou da XV de Novembro. Agora está tudo bem calmo. Não tem trombadinha, camelô ou o “homem da cobra”. Este último fazia um tremendo barulho com um velho megafone.
Para quem não conhece o homem da cobra, vamos a apresentação: Era um senhor que vendia uma pomada milagrosa. Segundo ele, o bendito remédio curava picada de cobra, furúnculo, machucados, arranhões, queda de cabelo, dor de dente, unha encravada, torcicolo, terçol, micose, bicho de pé, dores lombares e até mal olhado. Confesso que nunca vi ninguém comprovar se a tal pomada atendia a todas as “doenças” que o homem citava. Mas também nunca vi um cliente voltar para reclamar. Deve ser porque naquela época não tinha o Procom ou a Delegacia de Pequenas Causas.
Mas o homem da cobra recebeu esse título de algumas pessoas porque ele sempre mostrava uma jibóia no final de suas apresentações. Era o principal motivo para ele reunir tanto transeunte da Praça da Sé, inclusive o autor desse texto. Ele segurava os clientes com histórias até que uma certa quantidade de pomadas fosse vendida. Mas todo mundo que estava ali queria mesmo era ver a tal cobra que, segundo ele, uma vez o tinha picado.
Um dia, alguém soltou a expressão para um amigo. “Você fala mais que o homem da cobra”. Pronto. Foi o que precisou para o título “homem da cobra” servir para designar todos aqueles que falam muito. Só hoje eu me dou conta de que ninguém morre sendo mordido por uma jibóia. Elas não são peçonhentas, por isso, não picam, na verdade, mordem.
Depois de passar pela Benjamim Constant desci um pouco mais a Quintino e entrei na Barão de Paranapiacaba. Era nessa rua que eu passava a maior parte do tempo fazendo serviços. Ela não mudou quase nada. As mesmas fornituras, lojas de prata e ouro, óticas e lanchonetes. E o bando de propagandistas das lojas continua lá. Cada um deles tenta disputar cada cliente no grito.
E as ciganas ainda estão por ali. Elas sabem que a Barão de Paranapiacaba tem várias lojas de prata e ouro e onde tem esse tipo de mercadoria tem mulher. E onde tem mulher tem corações em busca de saber o futuro. Por 10 reais, as mulheres ficam sabendo número de filhos que vão ter, quando vão encontrar o príncipe encantado, números da sorte entre outras informações místicas.
Esses personagens, lojas e ruas fazem parte da minha história e eu, de certa forma, acho que também faço parte da deles. Foi curioso ver nessa quinta-feira que quase nada mudou e continua ali, exatamente no mesmo lugar que deixei quando eu era mais jovem e andava apressado pelo Centro.